Mulher e Negra S/A

13/10/2015


Esta semana, uma amiga jornalista branca, no Brasil, digo no Brasil porque em outros pontos deste planeta seria negra, me pediu para explicá-la como é ser negra no Brasil. Segue o meu relato.

Estou sentada à mesa de um restaurante em Ipanema, onde um prato custa R$70. Sou a única negra do recinto, com exceção da bela "hostess" do restaurante. Ao redor, as pessoas me olham e  se questionam o porquê de eu estar ali. Devem já concluir que o meu parceiro branco é quem pagará a conta. Afinal,  sou mulata exportação.

Que estudei em uma das melhores universidades do país, fiz mestrado no exterior, trabalho para uma grande empresa e divido a conta em casa, isso pouco importa. O meu perfil já foi carimbado. Ouço que fui afortunada com o casamento.

Entro na sala do angiologista em busca de tratamento para as varizes, o especialista diz que é normal para profissionais do meu ramo. Pergunto se ele sabe o que faço, ele, em tom elogioso, não titubeia:

- Tenho certeza que você é uma ótima cozinheira.

Eu estou na base da pirâmide. Minha beleza é reprimida o ano inteiro, mas podemos sair da caverna durante o carnaval, mas só um pouquinho, e não se acostume! Minha virtude se calcula pela simetria do meu quadril.

Por favor, não me taxe como pessimista. Evoluímos. Sou a primeira da minha família a quebrar o elo entre pobreza e trabalho doméstico, que desde o período pós- abolição regeu o progresso, ou a falta dele, dos meus antepassados.

Tudo o que precisamos é a oportunidade. Pequenos passos caminhamos, buscando e criando referências.

Mas se você mata um leão por dia, pode ter certeza que, como mulher e negra, eu já tive que matar dois antes de você terminar a leitura deste texto.

E você, qual é a sua história? 

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